Hipertextus Revista Digital Hipertextus Revista Digital Hipertextus Revista Digital Nehte/UFPE Website UFPE
 
 
Indexadores Nacionais:
 
Indexadores Internacionais:
 
Visitantes online:
 

 
 
Editoriais - Volume 3
 
 
Penso no perigoso fim do humanismo literário enquanto utopia da formação humana por meio de práticas de escrita e de leitura que promovam a atitude paciente e que eduquem para se julgar com circunspecção e manter os ouvidos abertos.
 
 
Peter Sloterdijk
 
 
 
Não lamento a morte de um conceito tão profundamente enraizado em projetos de dominação e de opressão.
 
 
Katherine Hayles


Antes de proceder à apresentação deste terceiro número da Revista Digital Hipertextus, focalizado no modo como as questões especificamente literárias são tratadas em face do advento do computador e das novas tecnologias da comunicação, gostaria de comentar brevemente duas cenas de obras que poderíamos classificar como pós-utópicas ou distópicas, pelo modo apocalíptico como concebem o futuro da humanidade a partir da destruição da cultura livresca que gerou, fundamentou e alimentou séculos de humanismo.

As cenas foram retiradas dos universos opressivos descritos nos romances: 1984, de George Orwell, publicado em 1948, filmado por Michael Radford em 1984, e amplamente citado quando da criação dos reality shows na linha do Big Brother, por ter inaugurado a idéia do “Grande Irmão” e a proposta do controle social dos espaços público e privado através de câmeras; e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953 e filmado em 1966 por François Truffaut.

A trama de Fahrenheit 451 apresenta vários pontos de contato com o seu antecedente, 1984, sobretudo no que diz respeito à linguagem como reduto de construção do humanismo e de garantia da preservação de seus valores na história. Um dos pilares do controle social na ficção de Orwell é a Novilíngua, um processo de destruição de palavras, que norteia uma das três máximas do sistema: “Ignorância é Força” (ao lado de “Guerra é Paz” e “Liberdade é Escravidão”). O objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento, de modo a tornar a Crimidéia – a idéia do crime – literalmente impossível, pois não haveria palavras para expressá-la. Os habitantes desta distopia não só não lêem livros, como se comprazem em destruir palavras, às dezenas, às centenas, todos os dias, reescrevendo um dicionário cada vez mais sintético, cheio de abreviações e de siglas, expurgado das “imprecisões e inúteis gradações de sentido” da língua original. O protagonista desta história, Winston Smith, vive uma séria crise de identidade, e a sua insubordinação máxima se concretiza na cena em que, encolhendo-se num vão de parede originalmente destinado a uma estante de livros e, portanto, fora do alcance do telão que escrutina o restante da casa, põe-se a escrever um livro à mão, o que “não era proibido” mas que, se fosse descoberto, seria punido com pena de morte.

O romance Fahrenheit 451 também se passa numa época em que os livros configuram uma ameaça ao sistema, numa sociedade onde eles são absolutamente proibidos. Para exterminá-los, basta chamar os bombeiros – profissionais que outrora se dedicavam à extinção de incêndios, mas que agora são os responsáveis pela manutenção da ordem, queimando publicações e impedindo que o conhecimento se dissemine como praga. Daí o título: 451 graus Fahrenheit é a temperatura de combustão do papel. Para coroar a alienação em que vive essa nova sociedade, anestesiada por informações triviais, as casas são dotadas de televisores que ocupam paredes inteiras de cômodos e exibem “famílias” com as quais se pode dialogar, como se estas fossem de fato reais. Neste cenário vive Guy Montag, um bombeiro que também atravessa uma crise ideológica. Sua esposa passa o dia entretida com jogos eletrônicos que realizam uma simulação vazia de interatividade, enquanto ele trabalha arduamente para comprar-lhe a tão sonhada quarta parede de TV. Sua vida sem sentido é transformada quando ele conhece Clarice, uma adolescente que reflete sobre o mundo e o instiga a fazer o mesmo. O misterioso sumiço da menina leva Montag a se rebelar contra a política estabelecida, e ele passa a esconder livros em sua própria casa.

Se a insubordinação máxima de Winston se configura no ato de escrever; a de Montag se configura no ato de ler. Mas enquanto Winston procura se esconder da teletela para escrever, Montag toma um livro nas mãos e se encaminha para a parede da sala, ligando um botão. A tela se ilumina, sem imagens. Ele se senta e começa a ler o livro, literalmente, “à luz da televisão”. O momento em que isso acontece é claramente assinalado, no filme de Truffaut, por uma metáfora visual: essa imagem irônica e curiosa que frisa a singularidade da distopia de Bradbury. Pois enquanto Orwell escreveu seu livro sob o impacto dos regimes totalitários (nazismo e stalinismo), Bradbury percebe o nascimento de uma forma mais sutil de totalitarismo: a indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético – a moral do senso comum. A insubordinação, hoje, seria praticamente impossível, pois mesmo a leitura de livros se faria “à luz” dos mecanismos de simplificação largamente exercitados nas pessoas pelos meios de comunicação de massa, o que impossibilitaria a compreensão da mensagem. Já não seria, portanto, necessário destruir palavras como na Novilíngua de Orwell, e nem mesmo queimar livros, como no próprio enredo de Fahrenheit 451.  

Essa visão negativista sobre o futuro do pensamento na era das mídias eletrônicas e da cibercultura parece vir assombrando uma grande parcela de produtores e consumidores de literatura através dos tempos. Mas nem todos partilham as idéias aflitivas que proclamam o desaparecimento do livro e, com este, o fim do humanismo. Muitos produtores e estudiosos da literatura, ao contrário, percebem uma provocação interessante e enriquecedora no cenário atual, uma provocação que envolve a crítica ao absolutismo da razão e à presunção antropocêntrica do sujeito racional. Para esses, o pós-humano como condição assinala não o fim do “humano”, mas o fim de certa concepção do humano, como diz Katherine Hayles: concepção aplicada, no máximo, “àquela fração da humanidade que tinha riqueza, poder e disponibilidade para conceitualizar-se a si mesma como seres autônomos exercendo sua vontade através da escolha e da ação individual”.

Conscientes deste fato, autores de muitas obras importantes do século XX promoveram o desmoronamento dos pilares de certas concepções do humanismo que estruturaram e ainda estruturam as principais instituições sociais do Ocidente, e que eram reproduzidas pelas estruturas convencionais do romance. Muitas dessas inovações narrativas, como o questionamento da mimese, a quebra da linearidade temporal, a fragmentação do enredo, o pluriperspectivismo narrativo, a intertextualidade declarada, o fim do monopólio do autor sobre o sentido através da interatividade com o leitor, e a problematização da idéia do livro como mercadoria antecipavam características que, futuramente, seriam próprias dos textos veiculados no formato do hipertexto em meio eletrônico. Todas as obras literárias verdadeiramente significativas sempre estiveram em sintonia com o seu tempo, e até mais: com o futuro. Os avanços científicos e tecnológicos tornaram-se temas de todo um gênero, a Ficção Científica, e inspiraram experimentalismos narrativos e poéticos os mais diversos. A migração do texto da página do livro para a tela do computador não impediu, antes incentivou, difundiu e democratizou a leitura, gerando novas e inusitadas perspectivas criativas, tanto para os escritores quanto para os leitores.

Os doze textos aqui reunidos pretendem discutir esses temas, seja através da análise de romances clássicos e modernos; seja através da leitura de poesia impressa e digital; seja através de considerações sobre a sobrevivência da literatura no meio virtual e a criação de novos gêneros especificamente voltados para as exigências e possibilidades deste suporte; seja, ainda, através do cinema e do discurso publicitário sobre o corpo humano e suas reconfigurações na contemporaneidade, que expandem a noção de “interface” homem-máquina. São mencionadas desde obras como L'Ève Future, de Auguste Villiers de l'Isle-Adam e a peça R.U.R.: Rossumovi univerzální roboti, de Karel Čapek, que problematizam os limites entre o homem e o robô, abordadas no texto de Márcio de Oliveira Bezerra, “Do Homo Sapiens à Mens Humanata: a literatura do trans-humano”; o romance V., de Thomas Pynchon, alvo, entre outras considerações sobre a tematização de conceitos científicos na literatura, do texto de Andréa Coutinho, “Leitura literária e categorias exatas”; o romance The.Powerbook, de Jeanete Winterson, construído sobre o layout das páginas de e-mails trocados entre as personagens, analisado por Ana Cecília Acioli em seu ensaio “Corpos sem corpos em The.Powerbook, de Jeanette Winterson”; até à discussão mais teórica sobre a evolução dos meios de comunicação no artigo de Marcus Petrônio Fernandes Iglesias, “A tecnologia como mediadora das interações humanas” e à especulação sobre o fim ou a renovação do livro na era cibernética, no artigo de Suzana Ferreira Paulino, “Livro tradicional & livro eletrônico: a (r)evolução do livro ou uma ruptura definitiva?”. O conceito de “emergência” em poesia é tratado no artigo “Vídeo-duração: morte e antropofagia em Tour de Augusto de Campos”, de Luciano Barbosa Justino; e em “Ciência e tecnologia na tradição literária pernambucana”, de minha autoria, sobre os poetas Joaquim Cardozo, César Leal e Alberto da Cunha Melo. Adriana Dória Matos e Fabiana Móes Miranda discutem os desdobramentos da literatura na Internet, nos textos “Escritores de blogs: a web como espaço de criação e discussão sobre literatura” e “Fandom: um novo sistema literário digital”, respectivamente; enquanto a temática do hiperrealismo, do simulacro e da realidade virtual através do cinema é abordada por Polyanna Angelote Camêlo em seu texto “Imagens em Fricção” (sobre Matrix) e por Maria Giselda da Costa Vilaça em “O show de Truman: espetáculo midiático de manipulação humana”; e Antônio Clériston de Andrade avança na discussão do pós-humano através da análise do caso do atleta que superou suas limitações físicas numa uma bem-sucedida simbiose com os recursos proporcionados pela moderna tecnologia protética, em “Oscar Pistorius – “The blade runner” – e a questão do pós-humano”.

Desejamos a todos uma boa leitura. Acessar Volume 3


Ermelinda Maria Araújo Ferreira
Recife, 18 de maio de 2009